sábado, 28 de março de 2009

da palavra do poeta

há uma palavra impossível.

todos os poetas estão mortos.

a mão existe/é
separada do gesto.
o olho escreve a sombra
sobre o nascimento

toda a voz é impossível.j

terça-feira, 24 de março de 2009

écloga

se no/do leito me vires ausente, se pressentires

a ausência do meu nome, avança

até à varanda azul do fruto, e escolhe

a melhor copa de árvore para a calibração

das minhas veias

se a árvore não entrar imediatamente em flor

e as noites forem sanguinárias,

não desesperes; sabe que também o leite

pode enegrecer e o vento emudecer


aguça o olhar, performa os ritos,

e entrega-te por momentos ao delírio e à volúpia

de todos os presságios; mas, confia no oráculo

das amendoeiras em flor e no pranto crepuscular

das flautas arrebatadas pelos zéfiros

o meu corpo encarnará das tuas pontas dos dedos

perscrutando os espaços (e o meu nome) poro a poro,

e eu far-me-ei de novo

pétala a pétala

emergirei do sossego dos lagos

que olhas nos fins de tarde, ou dos nódulos

da madeira do soalho, onde te deitas

serei o teu leito, e terás de novo

a minha boca

fruto a fruto

findar-se-ão os lutos e agonia das paredes

e não mais terás de amolar facas com o coração,

andar madrugadas à chuva, ou subir às copas das árvores

à procura da minha boca,

poderás de novo atear-me pelos tornozelos, que,

como tu dirias, incendiar-me-ei, e

não mais terás de beber o alcatrão das trovoadas

ou congeminar abcessos nos sonhos, que

serei a presença, a carne ateada do meu nome

até às pontas das falanges dos dedos, que te tocam

com o peso e a massa certa de um coração em flor

poderei perfumar-te de caules

poderás crescer-me em redor da cintura

poderás saber os meu nome veia a veia

e ver-me crescer-te em redor dos ombros

e orquestrar solstícios e equinócios

colcheias de lume e clareiras de pássaro

(eu, que te amo e quero gume a gume)

mulher cujos cabelos

têm o perfume das constelações e o júbilo

das copas em flor: sou o teu corpo verídico;

és a minha aurora de pulso, as

minhas veias todas correctas para

a construção da permanência

não mais atires o coração, aos frutos,

aos rios

terça-feira, 17 de março de 2009

belíssimo

Corona

Autumn eats its leaf out of my hand: we are friends.
From the nuts we shell time and we teach it to walk:
then time returns to the shell.

In the mirror it's Sunday,
in dream there is room for sleeping,
our mouths speak the truth.

My eye moves down to the sex of my loved one:
we look at each other,
we exchange dark words,
we love each other like poppy and recollection,
we sleep like wine in the conches,
like the sea in the moon's blood ray.

We stand by the window embracing, and people
look up from the street:
it is time they knew!
It is time the stone made an effort to flower,
time unrest had a beating heart.
It is time it were time.

It is time.
video

Fuga de Morte (Todesfugue) tradução duvidosa

Leite negro da manhã bebemos ao cair da tarde
bebemos ao meio-dia e de madrugada bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos céus onde o espaço sobra
nesta casa mora um homem que cultiva serpentes e escreve
escreve quando cai a noite nach Deutschland
os teus cabelos de ouro Margareta
escreve e sai da casa e as estrelas todas chamejam
e assobia chamando os seus cães
e assobia chamando os seus judeus faz-nos abrir uma vala na areia
manda-nos tocar para a dança

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos de madrugada e ao meio-dia bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
nesta casa mora um homem que cultiva serpentes e escreve
escreve quando a noite cai nach Deutschland
os teus cabelos de ouro Margareta
os teus cabelos de cinza Shulamite cavamos uma sepultura nos céus
onde o espaço sobra

Ele grita vocês aí cavem fundo a terra destinada e os outros cantem e toquem
ele puxa a espada que traz à cinta agita-a e os seus olhos são azuis
empurrem as pás mais fundo vocês aí e os outros que continuem
a tocar para a dança

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos ao meio-dia e de madrugada bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
nesta casa mora um homem os teus cabelos de ouro Margareta
os teus cabelos de cinza Shulamite ele cultiva serpentes

Toquem mais doce a música da morte grita ele Morte é um capataz
aus Deutschland
ele grita arranhem mais negro esse violino e depois flutuem como fumo
nos ares
depois cavem uma sepultura nas nuvens onde o espaço sobra

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos ao meio-dia Morte é um capataz aus Deutschland
bebemos ao entardecer e pela madrugada bebemos e bebemos
Morte é um capataz aus Deutschland o seu olho é azul
dá-te tiros com balas de chumbo a sua pontaria certeira
nesta casa mora um homem os teus cabelos de ouro Margarete
atiça os seus cães contra nós dá-nos uma sepultura nos céus
cultiva serpentes e sonha Morte é um capataz aus
Deutschland

o teu cabelo de ouro Margareta
o teu cabelo cinza Shulamite

Paul Celan (1920-1970), pseudónimo do poeta Paul Antschel

Paul Celan lendo o poema fuga da morte

video

quinta-feira, 12 de março de 2009

diálogo

"somos sinais por interpretar, quase perdemos a voz" Hölderlin (tradução decerto bem manhosa)

a ameixoeira em flor no quintal,

não sei dizer

os amigos que ficaram sem rosto
de andar contra vento

e eu, que quase emudeci
na necessidade de dar a prova
que consuma as cinzas

pura poesia

When The Ship Comes In

Oh the time will come up
When the winds will stop
And the breeze will cease to be breathin'.
Like the stillness in the wind
'Fore the hurricane begins,
The hour when the ship comes in.

Oh the seas will split
And the ship will hit
And the sands on the shoreline will be shaking.
Then the tide will sound
And the wind will pound
And the morning will be breaking.

Oh the fishes will laugh
As they swim out of the path
And the seagulls they'll be smiling.
And the rocks on the sand
Will proudly stand,
The hour that the ship comes in.

And the words that are used
For to get the ship confused
Will not be understood as they're spoken.
For the chains of the sea
Will have busted in the night
And will be buried at the bottom of the ocean.

A song will lift
As the mainsail shifts
And the boat drifts on to the shoreline.
And the sun will respect
Every face on the deck,
The hour that the ship comes in.

Then the sands will roll
Out a carpet of gold
For your weary toes to be a-touchin'.
And the ship's wise men
Will remind you once again
That the whole wide world is watchin'.

Oh the foes will rise
With the sleep still in their eyes
And they'll jerk from their beds and think they're dreamin'.
But they'll pinch themselves and squeal
And know that it's for real,
The hour when the ship comes in.

Then they'll raise their hands,
Sayin' we'll meet all your demands,
But we'll shout from the bow your days are numbered.
And like Pharaoh's tribe,
They'll be drownded in the tide,
And like Goliath, they'll be conquered.

adoro (o amor é também isto)

Baby Let Me Follow You Down

I first heard this from Ric von Schmidt. He lives in Cambridge.
Ric is a blues guitarplayer. I met him one day on
The green pastures of the Harvard University. -

Baby let me follow you down, baby let me follow you down
Well I'll do anything in this godalmighty world
If you just let me follow you down.

Can I come home with you, baby can I come home with you ?
Yes I'll do anything in this godalmighty world
If you just let me come home with you.

Baby let me follow you down, baby let me follow you down
Well I'll do anything in this godalmighty world
If you just let me follow you down.

Yes I'll do anything in this godalmighty world
If you just let me follow you down.

sem palavras

Girl From The North Country

Well, if you're travelin' in the north country fair,
Where the winds hit heavy on the borderline,
Remember me to one who lives there.
She once was a true love of mine.

Well, if you go when the snowflakes storm,
When the rivers freeze and summer ends,
Please see if she's wearing a coat so warm,
To keep her from the howlin' winds.

Please see for me if her hair hangs long,
If it rolls and flows all down her breast.
Please see for me if her hair hangs long,
That's the way I remember her best.

I'm a-wonderin' if she remembers me at all.
Many times I've often prayed
In the darkness of my night,
In the brightness of my day.

So if you're travelin' in the north country fair,
Where the winds hit heavy on the borderline,
Remember me to one who lives there.
She once was a true love of mine.

clímax e metamorfose

Don't Think Twice, It's All Right

It ain't no use to sit and wonder why, babe
It don't matter, anyhow
An' it ain't no use to sit and wonder why, babe
If you don't know by now
When your rooster crows at the break of dawn
Look out your window and I'll be gone
You're the reason I'm trav'lin' on
Don't think twice, it's all right

It ain't no use in turnin' on your light, babe
That light I never knowed
An' it ain't no use in turnin' on your light, babe
I'm on the dark side of the road
Still I wish there was somethin' you would do or say
To try and make me change my mind and stay
We never did too much talkin' anyway
So don't think twice, it's all right

It ain't no use in callin' out my name, gal
Like you never did before
It ain't no use in callin' out my name, gal
I can't hear you any more
I'm a-thinkin' and a-wond'rin' all the way down the road
I once loved a woman, a child I'm told
I give her my heart but she wanted my soul
But don't think twice, it's all right

I'm walkin' down that long, lonesome road, babe
Where I'm bound, I can't tell
But goodbye's too good a word, gal
So I'll just say fare thee well
I ain't sayin' you treated me unkind
You could have done better but I don't mind
You just kinda wasted my precious time
But don't think twice, it's all right

"Par delicatesse j'ai perdu ma vie" (Rimbaud) um dos melhores versos jamais escritos, sem dúvida

It Ain't Me, Babe

Go 'way from my window,
Leave at your own chosen speed.
I'm not the one you want, babe,
I'm not the one you need.
You say you're lookin' for someone
Never weak but always strong,
To protect you an' defend you
Whether you are right or wrong,
Someone to open each and every door,
But it ain't me, babe,
No, no, no, it ain't me, babe,
It ain't me you're lookin' for, babe.

Go lightly from the ledge, babe,
Go lightly on the ground.
I'm not the one you want, babe,
I will only let you down.
You say you're lookin' for someone
Who will promise never to part,
Someone to close his eyes for you,
Someone to close his heart,
Someone who will die for you an' more,
But it ain't me, babe,
No, no, no, it ain't me, babe,
It ain't me you're lookin' for, babe.

Go melt back into the night, babe,
Everything inside is made of stone.
There's nothing in here moving
An' anyway I'm not alone.
You say you're looking for someone
Who'll pick you up each time you fall,
To gather flowers constantly
An' to come each time you call,
A lover for your life an' nothing more,
But it ain't me, babe,
No, no, no, it ain't me, babe,
It ain't me you're lookin' for, babe.

WALKIN' DOWN THE LINE (ou como tudo está)



Well, I'm walkin' down the line,
I'm walkin' down the line
An' I'm walkin' down the line.
My feet'll be a-flyin'
To tell about my troubled mind.

I got a heavy-headed gal
I got a heavy-headed gal
I got a heavy-headed gal
She ain't feelin' well
When she's better only time will tell

Well, I'm walkin' down the line,
I'm walkin' down the line
An' I'm walkin' down the line.
My feet'll be a-flyin'
To tell about my troubled mind.

My money comes and goes
My money comes and goes
My money comes and goes
And rolls and flows and rolls and flows
Through the holes in the pockets in my clothes

Well, I'm walkin' down the line,
I'm walkin' down the line
An' I'm walkin' down the line.
My feet'll be a-flyin'
To tell about my troubled mind.

I see the morning light
I see the morning light
Well it's not because
I'm an early riser
I didn't go to sleep last night

Well, I'm walkin' down the line,
I'm walkin' down the line
An' I'm walkin' down the line.
My feet'll be a-flyin'
To tell about my troubled mind.

I got my walkin' shoes
I got my walkin' shoes
I got my walkin' shoes
An' I ain't a-gonna lose
I believe I got the walkin' blues

Well, I'm walkin' down the line,
I'm walkin' down the line
An' I'm walkin' down the line.
My feet'll be a-flyin'
To tell about my troubled mind.

Paul Simon - Graceland - belíssima esta música, amigos (ou como eu queria que tudo estivesse e fosse)

The Boy in The Bubble


It was a slow day
And the sun was beating
On the soldiers by the side of the road
There was a bright light
A shattering of shop windows
The bomb in the baby carriage
Was wired to the radio
These are the days of miracle and wonder
This is the long distance call
The way the camera follows us in slo-mo
The way we look to us all
The way we look to a distant constellation
Thats dying in a corner of the sky
These are the days of miracle and wonder
And dont cry baby, dont cry
Dont cry

It was a dry wind
And it swept across the desert
And it curled into the circle of birth
And the dead sand
Falling on the children
The mothers and the fathers
And the automatic earth
These are the days of miracle and wonder
This is the long distance call
The way the camera follows us in slo-mo
The way we look to us all
The way we look to a distant constellation
Thats dying in a corner of the sky
These are the days of miracle and wonder
And dont cry baby, dont cry
Dont cry

Its a turn-around jump shot
Its everybody jump start
Its every generation throws a hero up the pop charts
Medicine is magical and magical is art
The boy in the bubble
And the baby with the baboon heart

And I believe
These are the days of lasers in the jungle
Lasers in the jungle somewhere
Staccato signals of constant information
A loose affiliation of millionaires
And billionaires and baby
These are the days of miracle and wonder
This is the long distance call
The way the camera follows us in slo-mo
The way we look to us all
The way we look to a distant constellation
Thats dying in a corner of the sky
These are the days of miracle and wonder
And dont cry baby, dont cry
Dont cry

poema matinal (salvo seja)

a ameixoeira floresce no quintal
ao lado das ogivas da noite

é seu o fruto da cor da lava
é seu o vulcão da primavera

eu estou por baixo
sentado numa velha cadeira de vime

quero crer que me pertence
o triângulo núbil do seu florescimento

se eu dissesse que
é eurídice que é no quintal ao lado
mais depressa ainda desceria eu
ao fulcro do calor para provar o fruto,
desviando subitamente os olhos do céu

segunda-feira, 9 de março de 2009

como é que este gajo conseguiu escrever isto? e cantá-lo assim? é um dom absoluto... ele decerto deve achar decerto o mesmo

IT'S ALRIGHT, MA
(I'm Only Bleeding)

                Words and Music by Bob Dylan



Darkness at the break of noon
Shadows even the silver spoon
The handmade blade, the child's balloon
Eclipses both the sun and moon
To understand you know too soon
There is no sense in trying.

Pointed threats, they bluff with scorn
Suicide remarks are torn
From the fool's gold mouthpiece
The hollow horn plays wasted words
Proves to warn
That he not busy being born
Is busy dying.

Temptation's page flies out the door
You follow, find yourself at war
Watch waterfalls of pity roar
You feel to moan but unlike before
You discover
That you'd just be
One more person crying.

So don't fear if you hear
A foreign sound to your ear
It's alright, Ma, I'm only sighing.

As some warn victory, some downfall
Private reasons great or small
Can be seen in the eyes of those that call
To make all that should be killed to crawl
While others say don't hate nothing at all
Except hatred.

Disillusioned words like bullets bark
As human gods aim for their mark
Made everything from toy guns that spark
To flesh-colored Christs that glow in the dark
It's easy to see without looking too far
That not much
Is really sacred.

While preachers preach of evil fates
Teachers teach that knowledge waits
Can lead to hundred-dollar plates
Goodness hides behind its gates
But even the president of the United States
Sometimes must have
To stand naked.

An' though the rules of the road have been lodged
It's only people's games that you got to dodge
And it's alright, Ma, I can make it.

Advertising signs that con you
Into thinking you're the one
That can do what's never been done
That can win what's never been won
Meantime life outside goes on
All around you.

You lose yourself, you reappear
You suddenly find you got nothing to fear
Alone you stand with nobody near
When a trembling distant voice, unclear
Startles your sleeping ears to hear
That somebody thinks
They really found you.

A question in your nerves is lit
Yet you know there is no answer fit to satisfy
Insure you not to quit
To keep it in your mind and not fergit
That it is not he or she or them or it
That you belong to.

Although the masters make the rules
For the wise men and the fools
I got nothing, Ma, to live up to.

For them that must obey authority
That they do not respect in any degree
Who despise their jobs, their destinies
Speak jealously of them that are free
Cultivate their flowers to be
Nothing more than something
They invest in.

While some on principles baptized
To strict party platform ties
Social clubs in drag disguise
Outsiders they can freely criticize
Tell nothing except who to idolize
And then say God bless him.

While one who sings with his tongue on fire
Gargles in the rat race choir
Bent out of shape from society's pliers
Cares not to come up any higher
But rather get you down in the hole
That he's in.

But I mean no harm nor put fault
On anyone that lives in a vault
But it's alright, Ma, if I can't please him.

Old lady judges watch people in pairs
Limited in sex, they dare
To push fake morals, insult and stare
While money doesn't talk, it swears
Obscenity, who really cares
Propaganda, all is phony.

While them that defend what they cannot see
With a killer's pride, security
It blows the minds most bitterly
For them that think death's honesty
Won't fall upon them naturally
Life sometimes
Must get lonely.

My eyes collide head-on with stuffed graveyards
False gods, I scuff
At pettiness which plays so rough
Walk upside-down inside handcuffs
Kick my legs to crash it off
Say okay, I have had enough
What else can you show me?

And if my thought-dreams could be seen
They'd probably put my head in a guillotine
But it's alright, Ma, it's life, and life only.

caminhos

segue-se por um caminho
ladeado de extremo a extremo
pelo odor do verão
pelo rumor das florestas nocturnas

e dentro do contorno que nunca excede
o movimento

a palavra proferida diante de uma lâmpada

de seda ou
de quartzo

as palavras permitem ver através
do trilho do perfume

eurídice em dias de vento
diante dos lençóis estendidos
nas ladeiras

atravessadas pelos caminhos dos homens
pelo aroma dos frutos, pelo odor do pão acabado de nascer,

as palavras misturam o mosto
a substância dos cereais
no fundo dos silos

segue-se pelo caminho
que vai do odor à raiz
da fonte à estrela
da pele ao perfume
da semente ao lume

segue-se ladeado
pelo aroma dos cereais
acabados de ceifar
e pensa-se

o que dizer da beleza que tornou possível
tudo isto?
o que fazer
com isto que tanta beleza contém?


diz-se por fim que as palavras são caminhos
que atravessam a (aparente) imobilidade
das paisagens

erguidos corredores de água ladeados de borboletas
a pedra o seixo rubro dentro da memória
todo o secreto mundo do sonho
que se aproxima da pele dos homens
adormecidos dentro dos silos do verão

um nome
a cova dentro da estrela agora em movimento
a voz sempre procurada entre os escombros
dos roseirais depois de o verão haver passado
pelo mundo

eurídice dentro do movimento do sangue
para que o sabor tenha sentido

caminhos são tão-só o rumor
de passos sobre a brancura

o leito em que sou rio
e vou

sexta-feira, 6 de março de 2009

outra do mr. Barrett - a minha predilecta

It is obvious

may I say, oh baby, that it is found on another plane?
Yes I can creep into cupboards, sleep in the hall
your stars - my stars, a simple cot bars
only an impulse - pie in the sky
mumble listen dolly
drift over your mind - holly
creep into bed when your head's on the ground
she held the torch on the porch,
she winked an eye

Reason it is written on the brambles
stranded on the spikes - my blood red, oh listen:
remember those times I could call
through the clear day
time you'd be there...
'nd braver and braver, a handkerchief waver
the louder you lips to a loud hailer
growing together, they good of each either
no wondering, stumbling, fumbling
rumbling minds shot together,
our minds shot together...

So equally over a valley, a hill
wood on quarry stood, each of us crying
a velvet curtain of gray
mark the blanket where the sparrows play
and the trees by the waving corn stranded
my legs move the last empty inches to you
the softness, the warmth from the weather in suspense
mote to a grog - the star a white chalk
minds shot together, our minds shot together...

syd barrett- adoro mesmo esta música

It's awfully considerate of you to think of me here
And I'm much obliged to you for making it clear That I'm not here.
And I never knew the moon could be so big
And I never knew the moon could be so blue
And I'm grateful that you threw away my old shoes
And brought me here instead dressed in red
And I'm wondering who could be writing this song.
I don't care if the sun don't shine
And I don't care if nothing is mine
And I don't care if I'm nervous with you
I'll do my loving in the winter.
And the sea isn't green
And I love the queen
And what exactly is a dream
And what exactly is a joke.

quinta-feira, 5 de março de 2009

amnesiac (radiohead)

há a palavra proferida

aquela que eu não ouvi

entre as cerejeiras

eu todo já
com a flor
rente ao lábio

e o perfume às costas

e tu que, que dizias
subitamente

o início do verão
numa miríade de suspiros

para o gonçalo

tudo era hienas
em teu redor

e eu creio ouvir
ainda

amigo

a semente dedilhada no centro
do poro

música
há quem não tenha deus
e diga/e dia

que é perverso só por paráfrase
(ignorada modéstida)

também a lama cobre a rosa
sempre antes
do tempo certo

há sempre

quem ouça só
para colher o fruto
do furto

(e outras analogias afins)

há sempre quem
não saiba
o que fazer da inocência
e a conceda assim

como uma delicadeza por adquirir

há sempre a semente
dentro do fruto

(a voz) imune aos insectos

sem deus

empirismo transcendental (como sempre... à falta de mlhor título...)

o eu não é coisa de relações


é certo que os olhos
das hienas em redor do gelo
não ajudam ao movimento
do furor

o calor é sempre
coisa sem proposição,
como as rosas

há sempre quem queira o furto
(só) por desprazer

o odor da cinza que sempre agoniou
a célere vida das metáforas

eu nunca foi coisa de relações

o eu que ama a rosa sem
premissa

o silêncio que aquece o gelo
na concha das mãos

há sempre quem "persiga"
o odor do sangue

há sempre quem aja por mimésis
à falta de fruto

os pronomes não são pessoas
de relações, mesmo

que as hienas venham
extinguir
o furor e o perfume

(de pele e voz, as metáforas...)

eu nunca foi coisa de relações
que se deixasse ir sem música
como um anjo sem caminho

sem caminho só
os nomes e o silêncio

sem caminho só o fruto
do furto dos olhos

e sem caminho a água
fecundando o chão
coberto de dentes-de-leão

todo o caminho não é fruto de relações

e no fim e ao cabo, a mão sabe sempre
colher até o pó como fruto
e separar o joio do vento

instantâneo, com muito... dylan à mistura (para o Ramos Rosa)

e que dizer agora
da cabeça que se vê
ladeada pelo movimento
a noite toda
em redor do sangue

"ao sondar o verso percebi que há dois abismos..."

e que dizer do rosto
que dizer de um rosto que se viu

o perímetro do lábio
circunscrito pelos despojos do dia

e um insustentável equilíbrio
de mãos em redor do peito

todo o nome justificado precisamente
por aquilo que não diz

e a voz como uma distância sem centro

"Well, six white horses that you did promise
Were fin'lly delivered down to the penitentiary
But to live outside the law, you must be honest
I know you always say that you agree
But where are you tonight, sweet Marie?"

dir-se-ia agora o nome
que diz o silêncio excedido
pelo seu próprio começo
o rosto que mostra a imagem
finalmente desvelada pela sua mesma ausência

"It ain't no use in callin' out my name, gal
Like you never did before
It ain't no use in callin' out my name, gal
I can't hear you any more
I'm a-thinkin' and a-wond'rin' all the way down the road
I once loved a woman, a child I'm told
I give her my heart but she wanted my soul
But don't think twice, it's all right"

dir-se-ia agora o nome
que diz o silêncio excedido
pelo seu próprio começo, ou

o rosto que mostra a imagem
finalmente desvelada pela sua mesma ausência

(tão só)

um rumor que não contém o perfume


"And the words that are used
For to get the ship confused
Will not be understood as they're spoken.
For the chains of the sea
Will have busted in the night"

depois de todas as palavras esquecidas. sei.
a semente voltará a estremecer
sobre o tímpano das águas

e a palavra certa virá sempre
como uma voz que é um caminho
através da noite
toda ladeada de alfazema como anjos
plantados no contorno das cinzas

sei que haverá sempre no fim de cada poema.
uma felicidade maior que o mundo. dirias. mallarmé.
a rosa (in)conclusa precisamente

por tudo aquilo

domingo, 1 de março de 2009

quesito (le proces de j'arc) que magnífico filme do Bresson!!!

breviário de momentos - (o furibundo estaleiro do poema ou o dito por não dito; o poema no cepo)

«Um dia li num livro: "Viajar cura a melancolia".» (é)


como desatar o nó do vento
em torno do cepo em flor


e libertar o peso dos naufrágios
nas florestas pululantes de insectos
e odores ao meio-dia

também à devassa édipo respondeu
com enigmas

(é quando mais se sabe que menos se vê)


é quando sol atinge o zénite
que os insectos enlouquecem

e os pássaros de messiaen vêm povoar
o quintal do poema



(porque) também a ave procura a clareira
para dedilhar o poro de areia do verão
mas é junto à raiz do inverno que colhe
o tumulto e a música

também os homens se escondem no fundo no silos
junto ao inebriante aroma dos cereais

quando a primavera

se aproxima do mundo


(que pensariam no exacto segundo antes
de perderem a cabeça, esses reis que um dia
subjugaram a fertilidade da terra?)

depois de crescer rumo equidistante céu
também a rosa pede expensas à palavra
que a funda na água turva,
bem junto de onde os pés das danças antigas
auscultaram já tantas vezes florida a raiz
da urtiga


porque não há planta que não cresça com destino

(há uma resposta que legitime o enigma,
como há uma voz que justifica o silêncio?)

porque aqueles que um dia perderam
toda a clave de sol do mundo
afiam as lâminas no escuro, e odeiam,
as metáforas, e esperam, hienados,
na calada da noite o momento certo
para o seu xadrez

a esses, os que estão distantes,
não os interpela
nunca a voz que inicia a viagem
rumo às salinas

a esses
mais depressa os atingirá a fecha
do avesso

a esses devora-os o vento no cepo


também ao fogo deu jean d'arc
a outra face


(um poema assim a céu aberto
nem se assemelha a um poema
evita o rigor em proveito da verdade
escolhe sempre o caminho a direito
porque é sem dúvida o mais cumprindo
porque é sem dúvida o mais difícil)