terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Ravel, Sonatine III (com Debussy e Heidegger dentro)

agora o lugar é uma
delicadeza

(acompanha o movimento)
um rosto que surge

entre o odor
e a doçura

um olhar com o sol
bordado
por cima do peso
da cinza

a pálpebra bordada
no interior do dedal


tudo o que é

uma delizadeza
maior do que o mundo

uma voz

(ulterior)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ravel, Sonatine II

quando a sombra
dos teus dedos passava
através das teclas do piano

eu respirava os estilhaços
à flor da água

e dizia não posso

respirar mais fundo
com a sombra do lírio à tangente
da unha

Ravel, Sonatine I

são de seda
as mãos
que tocam na veia
que tocam nas mãos

respiram o sopro
que atravessa a vindima
das imagens

toda esta delicadeza
é também um modo de renunciar
à beleza em proveito do silêncio

domingo, 18 de janeiro de 2009

ravel, quarteto de cordas III

é no princípio que o fim
tem todo o seu começo

clave após clave, o sol
radiante sob a primavera
dos dedos

e a erva que cresce no espaço
que medeia
a sombra dos pianos
semeados na planície
circundada pelos laranjais de maio

depois vem o verão,
e os cravos são lentíssimos
anjos despenhados nas crateras do vento, clareiras

é nas tardes quentes que melhor
leio tudo o que não se pode ler
com a flor da laranjeira junto aos lábios
e a pele toda erguida na melodia do ar, lá
onde os violinos fecundam os cardos

lá onde o poema é só eu
e toda a melancolia das árvores

ravel, quarteto de cordas II

um corpo que se dirige, fulminante,
sem membros,
para o branco

entre o estertor de um gesto
outra rosa subitamente se levanta
pousada sobre o ombro
e expe-
lida pelo movimento

o que o verbo confirma

depois é a inanidade da mão,
a leveza que insufla nas coisas
até tudo ser lume

rosa arqueada entre os pregos
cravados dentro do mármore

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

ravel, quarteto de cordas I

o som fulge e refulge a exactidão
do gesto acompanha
o movimento do sangue nas
veias do pescoço

é um corpo tão verdadeiro
que é como se não existisse

e é estranho como algo
tão preciso
possa ser a origem

de tanta dúvida
a areia na boca à medida
que o vento fustiga a praia
diante dos olhos

uma imensa imagem interior


resta-me o dom da paráfrase

tecer o comentário que reproduz
tudo o que nunca aconteceu

é como se inventasse por música
a cintilação da pele dentro da noite,
e fosse depois todo
o extremo rigor dos gestos
acompanhando a melodia

e visse lá altas, redondas, precisas
todas as constelações siderais
entranhadas no odor a lavanda e urze
do meu sangue
exposto a toda a erosão gramatical

é como se fosse de âmbar ou sal quando digo
mar ou poema

diálogo

eu é quem o silêncio (me) diz

uma voz que me me chama
sem nada dizer

escuto então o eco nos corredores
de água, e imagino depois

casas às quais somente se chega
após a travessia do labirinto

o abismo que engendra o céu
por de baixo da pálpebra

ainda antes de o verso
ser escrito

vejo o plasma estremecer no engenho
pressinto

a amêndoa de âmbar dos olhos

e sei
uma voz que não pode nunca
dizer o seu lugar
sem que o silêncio (me) tenha já
dito o seu nome

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

viva a irlanda II , Turkish Song of The Damne,

I come old friend from hell tonight
Across the rotting sea
Nor the nails of the cross
Nor the blood of christ
Can bring you help this eve
The dead have come to claim a debt from thee
They stand outside your door
Four score and three

Did you keep a watch for the dead mans wind
Did you see the woman with the comb in her hand
Wailing away on the wall on the strand
As you danced to the turkish song of the damned

You remember when the ship went down
You left me on the deck
The captains corpse jumped up
And threw his arms around my neck
For all these years Ive had him on my back
This debt cannot be paid with all your jack

And as I sit and talk to you I see your face go white
This shadow hanging over me
Is no trick of the light
The spectre on my back will soon be free
The dead have come to claim a debt from thee

Viva a Irlanda (The Pogues)!

Thousands are sailing

The island it is silent now
But the ghosts still haunt the waves
And the torch lights up a famished man
Who fortune could not save

Did you work upon the railroad
Did you rid the streets of crime
Were your dollars from the white house
Were they from the five and dime

Did the old songs taunt or cheer you
And did they still make you cry
Did you count the months and years
Or did your teardrops quickly dry

Ah, no, says he, twas not to be
On a coffin ship I came here
And I never even got so far
That they could change my name

Thousands are sailing
Across the western ocean
To a land of opportunity
That some of them will never see
Fortune prevailing
Across the western ocean
Their bellies full
Their spirits free
Theyll break the chains of poverty
And theyll dance

In manhattans desert twilight
In the death of afternoon
We stepped hand in hand on broadway
Like the first man on the moon

And the blackbird broke the silence
As you whistled it so sweet
And in brendan behans footsteps
I danced up and down the street

Then we said goodnight to broadway
Giving it our best regards
Tipped our hats to mister cohen
Dear old times squares favorite bard

Then we raised a glass to jfk
And a dozen more besides
When I got back to my empty room
I suppose I must have cried

Thousands are sailing
Again across the ocean
Where the hand of opportunity
Draws tickets in a lottery
Postcards were mailing
Of sky-blue skies and oceans
From rooms the daylight never sees
Where lights dont glow on christmas trees
But we dance to the music
And we dance

Thousands are sailing
Across the western ocean
Where the hand of opportunity
Draws tickets in a lottery
Where eer we go, we celebrate
The land that makes us refugees
From fear of priests with empty plates
From guilt and weeping effigies
And we dance