quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

delicioso, sente-se o gosto no sorriso

http://www.youtube.com/watch?v=IMsnqQHOwFg

este sr. é doido mas a letra até é boa

http://www.youtube.com/watch?v=nNXJBXBoiN0

1

diante do mar

antevejo as planícies místicas de outubro,
quando o vento trás o travo das gaivotas
à boca semeada das papoilas da primavera

é verdade, há um caminho secreto que conduz,
através dos verdes campos de maio,
à casa que, regada do incêndio do verão
mostra em outubro que, depois da bucólica infância
das imagens, vem sempre o espaço do poema:


o olhar que distende o movimento da mão conduz
à casa a casa a casa a casa
a conciliação dos trabalhos da mão
com o perfume do silêncio


então, antevejo:
o poema é a mão que corrige o olho,
que antecipa a eternidade

sou o caminho dessa mão
que antevê o cálculo
do marinheiro que manobra
o astrolábio da canção

essa mão é todo o corpo do poema

a mão que distende o travo das manhãs pela paisagem
e mantém sempre todo o silêncio junto ao peito,

a mão que escreve as marés as marés as marés
e trás a lua a lua a lua para o olho,
e trás a lua condenada pela carne e pelo sal
à degustação das parábolas


entretanto,
o gosto progride, como um segredo

a mão promove uma lenta infância que se alarga,
um caminho através do poema, que
não teme a derrocada das casas, que
promove o anseio salubre que
as planícies infundem no rosto da criança
adormecida

sabe-se que
diante do mar, todos os caminhos levam ao silêncio

poema

antes e depois de tu morreres


As coisas que existiam antes de tu morreres
e as coisas que surgiram depois:

Às primeiras pertencem, antes do mais,
as tuas roupas, as jóias e as fotografias
e o nome da mulher que te deu o nome
e também morreu jovem...
Mas também um par de receitas, o arranjo
de um certo canto na sala,
uma camisa que me passaste a ferro
e que guardo cuidadosamente,
debaixo da minha resma de camisas,
algumas peças de música, e o cão
sarnento que por aí anda
com um sorriso estúpido, como se ainda aqui estivesses.

Às últimas pertencem a minha caneta,
um perfume conhecido
na pele de uma mulher que mal conheço
e as novas lâmpadas que pus no candeeiro do quarto
que iluminam o que leio acerca de ti
em todos os livros que leio.

As primeiras recordam-me que exististe,
as últimas que já não existes.

Que sejam quase indistinguíveis
é o mais difícil de suportar


-Henrik Nordbrandt

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Para ti

«o insustentável peso das maçãs
desperto sem outros olhos que não a pele. sinto as memórias por um caroço que trago fundo em mim. o futuro tem a cor da minha imaginação e toda ela está consagrada a uma espera de décadas para afirmar a leveza do sabor. saboreio dando tempo ao tempo para ter o tempo por dentro, a assistir e participar do insustentável peso das maçãs. se te digo cor é para consagrares as aparências com as essências e encontrares cada uma em cada mão. agora abre os olhos: o que farias hoje se hoje fosse tudo o que tivesses sem haver um amanhã? já sei. vou comer uma maçã e lembrar-me de um amigo que em tempos tive e que infimamente conheci. faço o que ele faria, também, com prazer e calma de quem não diz adeus mas até depois. nada me fará esquecer de sentir o apito do barco, o cheiro do pão pela manhã, a frase dita com carinho aberta a uma morte feliz. a maçã caiu. novas árvores virão.»

Michaux

RUMO AO HOMEM

Um sábio ser, um dia, veio e instruiu-nos a nós, os ignorantes.
Ensinou-nos a falar. Antes só sabíamos cantar.

Foi uma tentação. Com certeza devíamos aceitar. Agora todos sabemos falar, após alguns anos de infância e balbucios. Mas agora já não somos como dantes. Já não é aquele encanto.

Faziam-se coisas. Havia empresas, reuniões, obras, preparações rumo ao futuro. Tínhamos árvores. De quase tudo se ocupava ele. Outrora governava-nos. Não precisávamos de querer, de decidir. Ainda podíamos folgar. Desapareceu, sem conseguirmos perceber.

Agora tudo nos incumbe a nós, e ele deixa andar, já não se interessa.
É como se não desse por nada.

Não foi a primeira vez que ele se desligou.
A seu ver, é certo não sermos aceitáveis, nem sequer muito interessantes. Os nossos pais-predecessores sabiam interessá-lo. Eles sim, sabiam o que se impunha para não ficarem sozinhos, fazendo-o voltar. Nós porém não sabemos, não demos com o meio necessário.

Dantes uma música unia-nos. Uma música que nos fora dada para isso, para a ele voltarmos, para voltarmos ao ser tão importante que podia governar-nos a terra que era nossa. Uma certa música. Essa música, que nos fora legada para ser o elo, voltava a pô-lo em contacto com a gente. Mas foi perdida.

Alguns de nós deixam a tribo para ir viver com os animais selvagens. Nós deixamo-los ir.
Os animais selvagens não os aceitam. Não se deixam enganar por inclinações tumultuosas, por meras intenções.
Deste lado o fosso é grande e largo, um fosso que actualmente não pode ser coberto.

Porque nós não somos animais. Embora de certo modo ainda não sejamos homens perfeitamente. Havemos de sê-lo. Convém não desesperar. Já o fomos. Fomo-lo em tempos recuados. Ao mesmo tempo que esses que hoje em dia nos bosques e na savana inteiramente voltaram a ser animais, mas respeitamo-los. Vedamo-nos vigiar as suas vidas ou indagar seja o que for sobre essas vidas, o que desta ou daquela maneira talvez os humilhasse.
Porque, apesar de termos ficado, quanto a nós, mais de meios-homens sobretudo no aspecto, e por isso à frente dessas vidas, é de recear e é possível que só depois delas de novo nos tornemos homens completos e verídicos. Não se pode saber. Não se pode ter a certeza. Gabar-se a gente disso não cairia bem.
Por enquanto, a quatro patas ou de outro jeito, na floresta, em tocas, elas aguardam o seu longínquo futuro de homens, com grande dignidade, com uma dignidade exemplar.
-
-
-
-


PARAGENS BRUTAIS

Ao olhar a grande figura, enterramo-nos. Muitos já estão enterrados. Até onde, isso não sabem: ainda falam.
Os que se destinam a ser colados nas paredes da cidade serão alimentados com detritos. Habituaram-nos a este alimento. Deve bastar-lhes.

Nos baixios da memória, o céu. Restos. Restos de luz cujo emprego ignoramos.

Estamos à espera dos curativos. Vem atrasada a entrega dos curativos.

Vai-se adensando a sujidade.

Máquinas, então. Outras máquinas. Mais máquinas ainda. Havemos de descobrir. A cabeça continua plástica.

Passam ondas: de frio, de medo, de raiva, de impotência, de insubmissão, de incondicional protesto...
Ondas: para irem atracar aonde?

E sempre mais abaixo, procurar na cisterna do corpo.

Época das sagradas latrinas. Os olhares já não vêem as mesmas partes, e os mesmos conjuntos também não.

Por água abaixo. Por água abaixo ou de costas prà parede.

Christus não resistiu ao confronto.

Por cima das cidades as nuvens já não partem. As manhãs não regressam.
Violentamente agitadas as jaulas, mas sempre jaulas.

O Número aumenta.
Uniformemente, o ovo, em miríades, o ovo, as saídas do ovo; família para as necessidades do ovo, cadeia sem fim, manivela proveniente dos desejos. Quantos ovários oferecidos por esse mundo fora!

Os destinos de milhares de milhões de homens. Visíveis por todo o lado, mostrados, outra vez mostrados. A gente segue-os. Toda a gente ferida por toda a gente. Em massa em reservatórios.

Ouvir, ouvir de novo, dever de ouvir, dever de conhecer os acontecimentos.

Quanto ao solitário, por todos há-de ser enlameado.

Estamos aqui, onde não se pode estar sem desaparecer.

Mais alguns dias.

Em redor, máquinas com rodas em acção. Em andrajos coloridos, os últimos nelas montados dão ainda umas voltas.

Alguns caem. Não voltamos a vê-los. Mas ainda sobram. Ainda sobram enormemente.

Os recém-chegados. A nova agitação. A nova explicação. Novos malefícios.

A gritar, agarram-se e agarram-se. Todos, a todo o preço, aparecerem pelo menos uma vez no terraço.

Mal sabem ler e já imperadores. Rebanhos de imperadores.

Véspera de catástrofe. Instalação-mudança a preceder aniquilamento.

Em civilização atrelada, a gaivota e o veado ao mesmo jugo atrelados.

Profundos são os poços para onde somos aspirados; profundos como o mar.

A quantidade terá prevalecido.
Eles gostam de puxar uma corda a que muitos estão agarrados.

A barreira dos sinais retém, a barreira das denominações, a barreira das injunções. Universalidade da norma matemática.
Os que buscam, todavia, encontram, ao avançar, o impensável, cada vez mais o impensável, o inconcebível, o inapreensível indefinidamente.

Acabam-se os refúgios.
Espécie de actividade desmedida, a espécie de crescimento desmedido tudo terá amputado.

A sufocar, onde se entra, a sufocar embora aberto aos ventos todos.

Presença. Hominídea omnipresença. Os seus ruídos, carnívoros dos nervos.
De todo o lado, de milhares de léguas de distância as suas vozes voltam, retumbantes, acabrunhantes, penetrando sem tréguas no interior dos mais retirados aposentos.

Retirar-se. Quem poderia? Da espécie ninguém se evade.

Sobre o homem, sobre qualquer homem se abate a hominalidade.
Vão dar com o solitário, no seu retiro, em si envolto. Ele ouve, ouve-os enquanto reflecte, também ele com homens cava o Mundo.
Se não, como faria?


Tradução de Júlio Henriques
Textos extraídos de Chemins cherchés Chemins perdus Transgressions, Gallimard, Paris, 1981

Brian Eno, By this river

here we are
stuck by this river
you and I
underneath the sky
that's ever falling down, down, down
ever falling down

through the day
as if on an ocean
waiting here
always failing to remember
why we came, came, came
I wonder why we came

you talk to me
as if from a distance
and I reply
with impressions chosen
from another time, time, time
from another time

Brian Eno Mother Whale Eyeless (esta música dá mesmo vontade de correr o mundo de bicicleta a pedal, eheh, mas que é, sem dúvida um sonho)

Mother Whale Eyeless


I can think of nowhere
I would rather be
Reading morning papers
Drinking morning tea.


She clutches the tray
And then we talk just like a kitchen sink play
Nothing ventured nothing gained
Living so close to danger
Even your friends are strangers
Don't count upon their company.


Places for the fingers
Places for the nails
Hidden in the kitchen
Right behind the scales.


What do I care
I'm wasting fingers like I have them to spare
Plugging holes in the Zuider Zee
Punishing Paul for Peter
Don't ever trust those meters
What you believe is what you see.


In my town, there is a raincoat under a tree
In the sky there is a cloud containing the sea
In the sea there is a whale without any eyes
In the whale there is a man without his raincoat.


In another country
With another name
Maybe things are different
Maybe they're the same.


Back on the train
The seven soldiers read the papers again
But the news it doesn't change
Swinging about through the creepers
Parachutes caught on steeples
Heroes are born
But heroes die.


Just a few days
A little practice and some holiday pay
We're all sure
You'll make the grade
Mother of God if you care
We're on a train to nowhere
Please put a cross upon our eyes
Take me I'm nearly ready you can take me
To the raincoat in the sky
Take me my little pastry mother take me
There's a pie shop in the sky.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

a escrita do poema

I

por baixo do luto
do céu

a terra arável
com o sal por cima


II

todo o signo
sucumbe por vezes
à morte de um sentido

e, como se fosse apenas
a cruel doçura de uma carícia,
há um rosto que emerge
da pedra e da terra viradas
do avesso, e nos beija os olhos

quando o poema está completo


III

o que fica escrito
é a crueldade como conjugação
do alto e do térreo

e o fio-de-prumo
estendido na brancura do chão, por de baixo
da macieira

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Susan Sontag

Diálogo entre una descendiente de Noé y un pájaro
Susan Sontag
La Jornada - México

Cuéntame un cuento ¬dijo una de las descendientes de Noé¬. Sí, cuéntame un
cuento.
¬¿De qué clase? Mmmm. Puedo contarte uno con final feliz.
¬No seas condescendiente. Puedo tolerarlo. Sólo cuéntame un cuento.

¬Entonces te contaré uno con final triste. Pero después de un rato ya no
prestarás atención. Estarás inquieta, con la mirada distraída. Y te
preguntaré lo que ocurre y me responderás que ya has oído ese cuento antes.
Me dirás que no tenía por qué haber terminado tan mal.
¬¿Sólo hay dos clases de cuentos? No es cierto.
¬Ay, el cielo es amplio. Ay, el océano, profundo. Y todos los cuentos ya
han sido contados, ay, ay, ay...
¬¡Basta! Sólo quieres atemorizarme. Pero es inútil, no tiene remedio. Debo
mantener el ánimo en alto. Sé que eres un pájaro agorero. Te gusta
atemorizarme.
¬¿Agorero yo? Te equivocas. Me encanta estar vivo. Precipitarme, lanzarme y
posarme donde me apetece. Lo que ocurre es que si observo mi entorno no
puedo sentir más que desánimo.
¬Escucha, se supone que eres el portador de buenas nuevas.
¬Sólo puedo relatar lo que veo.
¬Pues vuela, entonces. Y no vuelvas hasta que puedas contar algo optimista.
¬¿Ves? Te lo dije, no quieres oír malas noticias.
¬Vaya, es que no quiero escuchar malas noticias siempre. No me lo reproches.
¬Bien, lo intentaré de nuevo. No creas que me gustan las calamidades, claro
que no. Así que quieta aquí y déjame echar otro vistazo.
¬¡Espera!
¬¿Qué?
¬No te distraigas por ahí. Quiero decir, no hagas el tonto. Es decir, sólo
trae las noticias.
¬Primero me riñes por agorero, y ahora me reprochas que lo pase bien. Pero
no puedo evitarlo. El éxtasis es lo mío. Soy un artista, ya lo sabes.
¬¿El éxtasis, dónde?
¬Por doquier.
¬Vaya suerte.
¬Qué, ¿nunca lo has sentido?
¬Claro, pero...
¬Sí, ya sé. Pero entonces algo te desanima. Cargas con todas estas
posesiones que tanto te importan y tienes que guardar y remplazar, y todos
tus ambiciosos proyectos y tu crasa parentela, y...
¬No hables de mis parientes, ¿te queda claro? Se esfuerzan mucho.
¬Todos os esforzáis. Sobre todo en ignorar las malas noticias hasta que
vienen a posarse en tu regazo.
¬Y ¿por qué no habríamos de albergar esperanzas? Considera a cuánto hemos
logrado sobreponernos. Y aquí estamos, todavía. Perduraremos. Lo sé.
¬Eso espero. Ojalá estés en lo cierto. En todo caso, yo me voy.
¬Pero, ¿volverás?
¬Sin duda.
¬¿Me lo prometes?
¬Desde luego que volveré.
...
¬Vaya, ¡te has retrasado!
¬Lo siento. Me lo estaba pasando bien.
¬¿Y qué más?
¬Estaba buscando buenas noticias.
¬¿Y?
¬Pues bien, siempre hay alguna buena noticia, si eso es lo que quieres
saber. Te ruego que no creas que disfruto con tu preocupación.
¬Vamos, preocúpame.
¬Nada parece estar marchando muy bien allá. Vi cosas muy perturbadoras.
¬Estoy segura de que te desviaste para encontrarlas.
¬No hizo falta ir muy lejos.
¬Quizás no te parezcan bien a ti. Quizás mi punto de vista es distinto.
¬Muy bien, prueba tú. Traigo algunas fotos.
¬Vaya, fotos. ¡Qué bien!
¬Míralas.
¬¡Dios mío, es la luna! Las aguas retrocedieron y recalamos en la luna.
Alabado sea el Señor.
¬No, es el desierto.
¬Ah. Mira, éstas son magníficas.
¬Gracias.
¬Me parece muy hermoso. Estos dorados, rosados y castaños. Y el cielo. Y la
luz. No veo que haya nada malo.
¬Bien, no se trata sólo de mirar. Tienes que saber lo que ha estado
sucediendo. Hay un cuento que acompaña las fotos. Cuando conoces el cuento,
las fotos cobran otro sentido.
¬Ya sé, ahora me vas a venir con lo de la maldad humana. Ya me sé la
historia. Por eso hubo un diluvio.
¬No, no quiero contarte algo tan general. Más bien quiero hablar de la
pasividad. Y del poder. Quizás adviertas que no hay gente en las fotos.
Pues esto es lo que ha hecho la gente.
¬De igual modo, me parece hermoso. ¿No puedes ver el friso sutil de las
ruinas a lo lejos, casi del mismo color de la arena?
¬A veces, cuando las cosas son destruidas, parecen hermosas.
¬¿Más hermosas?
¬A veces.
¬¿Y cómo lo sabes?
¬Debes aprender a interpretar las señales.
¬No, puro graznido.
¬Graznido humano, te lo aseguro.
¬¿Hay mucha gente que conoce esta historia?
¬Sí. Mucha. La cuestión no está en saber sino en preocuparse.
¬Pero debes aceptar que preocupaciones sobran. No puedes preocuparte por todo.
¬Creo que esto debería preocuparte.
¬Pero el mundo es un lugar muy amplio, ¿no es así? Quiero decir, hay mucho
espacio. ¿Realmente importa lo que sucede en unos cuantos lugares? ¿Si unos
lugares se estropean, arruinan o profanan? Siempre hay espacio para
continuar. ¿Si se le prende fuego a unas bibliotecas llenas de libros y
manuscritos viejos, si se saquean unos cuantos museos? Al mundo le sobran
más cosas viejas, si eso es lo que te gusta ver.
¬Debes de ser de Estados Unidos.
¬¿Cómo?
¬No importa.
¬Creo que le contaré esta historia a unas cuantas personas. ¿Les puedo
mostrar las fotos?
¬¿Por qué no?
¬No vueles ahora. Quédate en tu percha. ¡Volveré antes de que me eches de
menos!
...
¬¿Me echaste de menos?
¬¿Qué dijeron los demás?
¬Dijeron que las fotos eran hermosas.
¬¿Es todo?
¬Dijeron que también estaban inquietos.
¬¿Qué más?
¬Dijeron que no había nada que hacer.
¬¿Eso dijeron? ¿Todos?
¬Bueno, no todos...
¬Y...
¬Dijeron que el mundo allí fuera es cruel.
¬Yo diría que el mundo también es cruel aquí dentro. En tu, ¿cómo le has
llamado?, arca.
¬Nos las arreglamos.
¬Ya veo.
¬¡De verdad! Sólo tenemos que, mira, reducir nuestras expectativas.
¬A medida que todo empeora.
¬Exacto.
¬¿Y ahora quién es el pesimista?
¬No es pesimismo. Es realismo.
¬Sí, claro.
¬Y también me advirtieron de que me tomara con un grano de sal lo que
decías. Dijeron que eras un artista.
¬Yo ya te dije eso.
¬Creí que tu labor era traer noticias.
¬Los artistas también hacen eso.
¬Sí, malas noticias.
¬No siempre, te lo aseguro.
¬Dijeron que a los artistas les gusta centrarse en los desastres. Que se
deleitan en las malas noticias. Y que son moralistas ingenuos que no
comprenden las leyes de hierro de la historia. Y (no te rías) del progreso.
¬¿Cómo cuáles?
¬Bien. El porqué tienen que hacer eso. La gente que todo lo domina. Por qué
tienen que destruir el desierto. Y, a veces, las ciudades y los pueblos. Lo
que me mostraste en las fotos.
¬¿Por qué, entonces? Dímelo tú.
¬Porque tenemos enemigos. Enemigos malévolos. Hemos de estar preparados.
Tenemos que defendernos. Tenemos que ir allá y detenerlos antes de que sean
lo bastante fuertes para hacernos algo.
¬¡Loro!
¬Oye, no todos somos pájaros aquí.
¬¿De verdad te crees lo que acabas de decir?
¬Mira, estoy pensando en lo que me comentas. Es una pena, en verdad. Las
marismas se convirtieron en desierto. El desierto profanado. Y lo que le
sucedió a los animales. Y a la agente y a lo demás. Pero hay muchas otras
consideraciones, políticas, económicas, científicas, que no comprenderías.
Eres un vagabundo. Eres un artista.
¬Es cierto. No tengo ataduras. Como un pájaro.
¬Digamos.
¬Veo que has conocido a muchos artistas.
¬Si te he ofendido, lo lamento.
¬¡Dios mío, dame fuerzas! ¡Estos ilusos tan...!
¬A mí no me graznes. Yo no fui. Yo no devasté el desierto. No maté a los
animales. Ni masacré a los conscriptos. No prendí fuego a la biblioteca ni
saqueé el museo de antigüedades.
¬¿Sabías que durante la primera guerra del Golfo se mostraban películas
pornográficas a los pilotos justo antes de que los enviaran a sus misiones
de bombardeo?
¬Pilotos de Estados Unidos.
¬Así es.
¬Oye, ésa ha sido práctica en más guerras coloniales norteamericanas que
las que puedo contar. Pero los estadunidenses no inventaron el vínculo
entre la testosterona y el placer de dar muerte, sobre todo de dar muerte
desde lo alto de los cielos a gente indefensa en tierra, del mismo modo que
es el único país que envenena su propio territorio.
¬¿Qué quieres decir?
¬Que todos hacen lo mismo en cuanto se les presenta la oportunidad. Así
pues, ¿por qué te metes con Estados Unidos?
¬Supongo que porque soy un artista estadunidense.
¬¿Estás poniéndote sarcástico?
¬¿Yo?
¬Sí, tú.
¬Hasta pronto, yo me largo al desierto de la alegría.
¬Sabes, antes de que te marches, debes reconocer que la naturaleza es
violencia.
¬Y la naturaleza humana.
¬Sí. Aunque no todos se comportan tan mal como la gente puede llegar a
comportarse.
¬Como si fuera perenne. Eso está sucediendo ahora mismo.
¬Pues yo no soy una de las perpetradoras. La gente que de hecho hace esto
ni siquiera hablaría con una criatura como tú. La gente que hace esto sólo
alzaría una arma y te borraría de los cielos.
Se escucha un aletear de alas.
¬¡Oye! ¡No te vayas! ¡No soy una de los dirigentes del planeta! ¡Soy una
pobre criatura como tú! No te... vayas.
...
Aquí estoy de vuelta.
Silencio.
¬¿Hola?
¬Creí que no ibas a volver.
¬Ay, soy un pájaro persistente.
¬¡Sin duda alguna! Pero, en serio, te admiro porque no te has dado por vencido.
¬Pensé que si seguía cantando, lo comprendería finalmente.
¬Pues sí, la tenacidad es una de las virtudes. Y las fotos son
inolvidables. He de reconocerlo. Tus paisajes de catástrofe.
¬Pero te gustaría olvidar lo que te he mostrado, ¿no es así?
¬Claro que sí. ¿Quién quiere sentirse más desamparado?
¬Pero no lo olvidarás.
¬Aunque me quedara ciega no podría olvidar esas fotos.
¬Es curioso que menciones la ceguera. Pues ése era el tema de la homilía
que tenía intención de pronunciar. ¿Lista para la homilía?
¬Dispara.
¬Dios mío.
¬Vamos, es una broma.
¬No hay bromas.
¬Tienes que tener sentido del humor. Para sobrevivir.
Silencio.
¬Vale, pues.
Silencio.
¬En serio, estoy escuchando.
¬Mi homilía. Acaso lo sepas o no, pero hay dos clases de ceguera. La
retiniana, que causa deterioro ocular, y la cortical, que resulta de una
lesión en el cerebro y deja los ojos intactos.
¬Qué interesante.
¬El punto es que la gente con ceguera cortical ve, en algún sentido, es
decir, recibe impresiones visuales en la conciencia. Pero se considera
ciega porque esas impresiones no pasan a la plaza más pequeña de la
conciencia. Esto ha sido demostrado en un experimento reciente.
¬Me gustan los experimentos.
¬Sí, ya lo sé. Bien, en todo caso, imagina una persona con ceguera cortical
en un lado, por ejemplo, digamos, el derecho. La sientas a la mesa. Giras
su cabeza a la izquierda. Colocas unos objetos, digamos, una taza de café y
un candelabro, en la mesa, a la derecha. Si preguntas. "¿Qué ves en el lado
derecho de la mesa?" La respuesta es: "Nada. Ya sabes que estoy ciego de
ese lado". Pero si replicas: "Sí, es cierto, no puedes ver de ese lado,
estás ciego. Pero supongamos que pudieras ver, imagina que puedes ver.
¿Dónde crees que están los objetos en la mesa?". Y entonces, oh milagro,
apenas dudándolo, la persona ciega extiende el brazo, abre la mano un poco
en busca del candelabro, y la abre más para la taza.
¬¡Vaya! ¿En verdad?
¬Sí. Pero ésta es una historia. Me pediste un cuento. Esta es una parábola.
¬¿Y cuyo sentido es...?
¬Que lo mismo sucede con nuestras acciones. De igual modo que sabemos mucho
más de lo que nos damos cuenta, podemos hacer mucho más de lo que nos
creemos capaces. Formula la pregunta directamente: ¿Qué podemos hacer para
evitar la destrucción del planeta y la creciente ola de violencia humana?
La respuesta tiene que ser: Nada. ¿Los seres humanos contra los animales,
los hombres contra las mujeres, la historia contra la naturaleza? Nada.
Pero qué sucede si decimos: De acuerdo, no puede evitarse. Sin embargo, si
imaginamos, sólo como hipótesis, aunque desde luego es imposible...
¬Ya veo ¬dijo la descendiente de Noé.
¬Sí ¬respondió el pájaro¬. Otro marco para la voluntad. Porque está tan
claro como el día y la noche: los bosques están siendo arrasados; las
aguas, envenenadas; el aire se está oscureciendo y volviendo tóxico. Y los
gobiernos presuntuosos continúan proyectando su poder con éxito: para
conmocionar y asombrar, masacrar, explotar y despojar. Es cierto, no se
puede salvar al mundo. Pero, ¿si actuamos de todos modos como si pudiera
salvarse? Pues entonces...
¬Ya veo ¬repitió la descendiente de Noé.
¬Sí ¬dijo el pájaro agorero, algo más animado¬. Casi es posible que se
pueda salvar el mundo.