segunda-feira, 13 de julho de 2009

como nunca recordar o que aconteceu [A OMISSÃO DO CENTRO]




como nunca recordar o que aconteceu

[A OMISSÃO DO CENTRO]

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17 JULHO 09 . 19 H

CCB . Centro Cultural de Belém

Praça do Império . Lisboa


um projecto de Ana Nobre e Luís Felício,

com a participação de Joana Tavares

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Uma imagem não tem um lugar, ela deriva de todos os lugares. Sem centro.

É a diáfora do sentido.

A imagem: a repetição de um lugar com outro lugar.

A substituição de uma ficção com outra ficção.

O que é que acontece quando (o) nada acontece?

Toda a imagem é a recordação do impossível: uma ficção, uma forma

de mostrar o sentido precisamente através da omissão do seu centro.

Toda a imagem significa dar o lugar às coisas, deslocá-las ou atravessá-las,

dar-lhes outros lugares.

Uma imagem: a possibilidade de pensar o impossível, de pensar o impensável:

toda a imagem é ao mesmo tempo tudo o que deve ser pensado e o que não

pode de facto ser pensado.

A imagem – ficção – como aquilo que não pode ser pensado, porque

é aquilo que permite o ter lugar do pensamento.

O ter lugar do lugar. O pensamento, a imagem, são distância do centro,

são a deslocação do sentido – a vida dos corpos.

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Na ausência do pensamento em acto e da própria acção é certo que algo

acontece. O corpo acontece.

Sabe-se que na ausência do (acto) pensamento como centro das determinações

o real continua a acontecer – exterior ao próprio pensamento o sentido continua

a ter lugar.

O pensamento é também só na condição da omissão do seu centro.

O centro é o que não se pode ver.

O pensamento, o acto, são uma imagem do mundo.

O pensamento só se processa na condição de estar ausente do seu próprio

centro, do seu próprio presente.

_

Onde está o centro do sentido? Qual o centro de onde vem uma imagem?

Pensamento e imagem têm a mesma natureza. Dão-se só na condição

da sua ausência no mesmo momento em que acontecem.

Daí a sua ausência do momento presente, a sua não-presença, que paradoxalmente

é a única forma que ambos têm de conseguir aproximar-se do tempo

presente, desse aqui e agora que sempre nos escapa.

É por isto também uma performance sobre o Tempo, nomeadamente sobre

o que é o presente, o presente acontece?

É possível estar/ser consciente de uma vivência presente?

como nunca recordar o que aconteceu [A OMISSÃO DO CENTRO]

terça-feira, 9 de junho de 2009

paul celan

falar a língua do estrangeiro

o idioma das flores

do mesmo pó
da carne
mesma

é feito o sopro

o fuso dos lábios atravessado

pela melodia do dedal

rimbaud

o rastro do cometa desenhado no rosto

todo o caminho
que se tem de fazer até ao fim

terça-feira, 26 de maio de 2009

o sol em sustenido
sob a pauta d'água

a dupla morte do silêncio

tudo aquilo que se diz diz-se

duas vezes

sexta-feira, 22 de maio de 2009

como em bach, também assim no amor

música, bach:

um carpinteiro
esculpindo anjos de perfil
numa pauta de in-verso/inverno

(quem escreve, é também como se
assistisse ao súbito contágio melódico
das síladas inventadas tão-só para deleite das mãos)

louco de pianos
semeado pela boca
às teclas

tudo se aprende apenas por deleite

como uma levíssima criança silábica

pedem-se emprestadas as bocas
outrora, e para sempre, dos outros
enlevadas no ritmo

bocas (com) que

é preciso atravessar

esse calor inteiro
essa combustão
nas grutas

e isto faz-se assim

umas vezes ou
meta- ou
outras vezes por dentro

isto faz-se sempre por onde o perfume
mais abrasa a língua

nunca houve outra forma
de escalar a infância
senão pelo som

diria o outro: isto faz-se por música

e, não fosse antes já o som enredado nos pés,
isto far-se-ia assim levissimamente

não fosse absolutamente necessário

chegar ao fim do caminho para
começar

como em bach, também assim no amor

breve ensaio para poema de amor

da rosa quero apenas
o perfume atravessando
a penumbra dos dedos

que

caules são coisas para plantar
nas casas,
para dizer a pretexto de

para dizer que soçobra sempre
depois dos olhos
a mais extrema doçura
colhida nas ânforas

ora, vejamos, pois bem: "o pretexto
deforma a expressão"


mas começa-se sempre por querer
sem saber

as mãos aflitas
sobre a roupa
desatentas ao perfume
a boca debruçada sobre o aroma

começa-se sempre por dizer
o que não se sabe: cisternas
abertas dentro do verão
esses gestos de tão-só disseminar odores

para ver que o poema impõe
a expressão como ordálio do pretexto

não há deus mais justo
que aquele que nos dá:

os gestos contornados pelo sabor
e depois toda queda mais sombria

ordálio:

da rosa, quero apenas não falar de mim
de mim, quero apenas a pele, e o aroma

do poema quero apenas
a justeza perfeita de falar
com toda a voz dos outros

e, do amor quero apenas a rosa
sem pretexto

aquele gesto que desponta da floração

do sal,

e tudo aquilo que dizemos
sempre sem saber

quinta-feira, 21 de maio de 2009

para o Herberto Helder

campânulas de vidro desenhado
sobre o vidro, de vidro

(e dentro das casas)
o vento norte entre
a espada e a parede

a mão entre a lavra da cal
e a doçura do silêncio

e de vidro a boca pouca louca
para tanta água

de vidro sempre
a veia a pretexto do sangue

campânulas
transparente ciência infusa

e brilha também ao alto
o sangue nos coágulos
na extremidade mais porosa da memória

uma ave-campânula semeada em chão de página

é este todo o acto que obsidia, o acto
de circunscrever odores a precisão melódica
toda a sintaxe erguida a partir

do mármore

ciência sonora do sangue
o fundo poder de adivinhar e dizer
por sangue

campânulas, o som que fazem, e produzem
ao passar por elas adentro
todo o rumor do mundo,
todo o mundo omisso
entre a lavrada terra funda
e a infundida leveza do verso

de vidro de vidro a música, duvido
que haja outra forma de cantar
senão com a mão funda dentro
do sangue
e o astro-lábio habilitado
à síncope melódica

com a mão lavrando campânulas sobre
o vidro eléctrico

os pronomes como
espelhos olhando espelhos
olhados olhos olhados a partir
do omisso centro das imagens

é uma confiança cega, o ritmo

é assim que se perde finalmente um rosto


e diz-se "a mão na pena vale a mão na charrua"

e senta-se a assim, levíssimo, feito tão-só de ar,
num verão de amoreiras em torno do pensamento

convocam-se incêndios em celeiros de amor
porque tudo é sempre devido àquele
que conheceu o mundo

não se lamenta nenhum espelho

e pensa-se em campânulas com o sangue do avesso

do mundo, pensa-se em árvores semeadas
sobre a lavra do pó

pensa-se em poemas, acredita-se (sabe-se)
que tudo está sempre por fazer

acredita-se no puro movimento das palavras,
como se

incêndios de aves rodeassem

in-ter-mi-ten-te-mente
o tímpano

e mente o tímpano que ouve a/à distância

"todo o anjo é terrível"

e descobre-se que é preciso tão-só
plantar as coisas no vento: campânulas

para que o pássaro de boca do poema
possa sempre acompanhar
a cega floração do sal

campânulas os poemas assim escritos
no contágio de lume e ave

e, de vento os poemas: som, som, som
som, habilitado à travessia do odor

sim, corpos gestos: o odor deslocado no sopro

mãos depois, mãos: o odor colhido

sim, o poema começa sempre pela
abdicação dos olhos

vidro escrito sobre vidro,
apesar de tudo e de nada
"no mundo"

domingo, 10 de maio de 2009

filologia

a imagem expõe
a carne lírica dobra o corpo
sobre a extensão do oráculo

a dança é azul, mostra
a lua sobre a pele dos ombros da pítia
prostrada diante do altar entoando
os cânticos sagrados

o êxtase é um ofício cutâneo: filologia

a voz desloca-se do centro para a periferia
das paisagens, é a melodia do lume
devorando a madeira
de um corpo que se abre à desmesura,

que mostra a carne dobrada sobre
o ausente rosto do mito

este verbo de que o corpo é espelho
é a medusa que devora as imagens
e promove o desvio do lume através
do que não se pode ver

o êxtase é a forma corporal do poema,
se a mão toca subitamente o esse rosto
que nunca se vê

esse corpo puramente cutâneo
que se expõe à filológica ascese do nervo
e que abdica da veia para dizer o verídico rosto
da noite caindo sobre as paisagens do homens

quinta-feira, 7 de maio de 2009

clair de lune

a lua no eixo do olhar que olha
e anseia por rosas nas clareiras onde
o verbo se amplia, e, na sede, é
a madeira em flor desde os nódulos dos dedos

é o verbo elevando-se na angariação dos ritos
são os altares lavados, os objectos,
cada um e todos santificados, se nomeados

o poema deve abordar directamente
o seu único objecto (tudo)
deve tocá-lo até ao seu húmus, onde
respiram as manhãs sob o conluio das luas

o poema deve pensar-se, digamos,
musicalmente, deve ser
imagem sem imagem: tempo irresoluto, implacável

o corpo irremissível

o mais ínfimo milésimo de segundo:

música de câmara do coração

e
o verbo, que é uma nevralgia em flor
ou a face rubra dos ventos

o poema deve encarnar o epigramático coração
do mito:

e o verbo no vórtice das águas, ou o sol
na fronte de um homem que ri
perante as árvores em flor
no esquecimento de todos os lugares

o que também é o poema

(e) tudo o que o poema não é