Quarta-feira, 17 de Março de 2010

Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

diante do mar

diante do mar

antevejo as planícies místicas de outubro,
quando o vento trás o travo das gaivotas
à boca semeada das papoilas da primavera

é verdade, há um caminho secreto que conduz,
através dos verdes campos de maio,
à casa que, regada do incêndio do verão
mostra em outubro que, depois da bucólica infância
das imagens, vem sempre o espaço do poema:


o olhar que distende o movimento da mão conduz
à casa a casa a casa a casa
a conciliação dos trabalhos da mão
com o perfume do silêncio


então, antevejo:
o poema é a mão que corrige o olho,
que antecipa a eternidade

sou o caminho dessa mão
que antevê o cálculo
do marinheiro que manobra
o astrolábio da canção

essa mão é todo o corpo do poema

a mão que distende o travo das manhãs pela paisagem
e mantém sempre todo o silêncio junto ao peito,

a mão que escreve as marés as marés as marés
e trás a lua a lua a lua para o olho,
e trás a lua condenada pela carne e pelo sal
à degustação das parábolas


entretanto,
o gosto progride, como um segredo

a mão promove uma lenta infância que se alarga,
um caminho através do poema, que
não teme a derrocada das casas, que
promove o anseio salubre que
as planícies infundem no rosto da criança
adormecida

sabe-se que
diante do mar, todos os caminhos levam ao silêncio

Sábado, 12 de Dezembro de 2009

campânulas


I
campânulas de vidro desenhado
sobre o vidro, de vidro

as mãos de vidro

e a infância,

(dentro das casas
de vidro os meus lábios)

o vento norte entre
a espada e a parede

e a mão entre a lavra da cal
e a doçura do silêncio

e, de vidro a boca pouca louca
para tanta água

de vidro sempre
a veia a pretexto do sangue/
do texto

o palimpsesto das mãos
enredadas no odor

no poema, isto é
, a pele à tangente do perfume
e os lábios postos
sobre, muros, a letra a lâmina

tão precisas na melodia

a voz tangida no leito da pedra

de vidro
o poeta, isto é

, ser um rio
e ver tudo a partir
do interior do sangue

e também depois o gesto de acompanhar as sebes
à transparência de um eco

hermes olhando os quintais
hermes caído sobre olhos de barro dos animais

todo o rubro desaire do epifonema, a canção


a boca sempre tão próxima do silêncio

(o lábio dedilhado o cume dos ulmeiros
em noites)


II
campânulas, os poemas, lentíssimas casas de ar
essa mínima raiz do inverno

transparente ciência infusa,
o gesto puro e simples de tocar
alguém com um nome, assim

e brilha também ao alto
o sangue a linfa a lava

nos coágulos silábicos do texto

enquanto na extremidade mais porosa da memória
um anjo estremece dentro da madeira

uma ave-campânula semeada em chão de página


é este todo o acto que obsidia, o acto
de circunscrever odores a precisão melódica

toda a sintaxe erguida
a partir

do mármore, do sal, da prata


ciência sonora do sangue

o fundo poder de adivinhar e dizer
por palavra

o eco dos olhos na pureza do leito

e gesto de respirar a prumo
o aprumo
dos nomes

quero as suas vogais de silêncio

o modo como são de vidro
quando tocados,

(como os teus lábios,- agora)

III
campânulas,
os nomes
o som que fazem,-
a face que dão

e como me comovem os dedos-

ao passar por elas adentro
todo o rumor do mundo, todo o mundo omisso
entre a lavrada terra funda
e a infundida leveza do verso,-pele a pele-

os nomes o oculto labor de adivinhar
por gesto

o oculto gesto de escrever
o eco dos olhos sobre o vidro

e, de vidro, depois, de vidro a música; / duvido
de vidro, duvido
que haja outra forma de cantar
senão com a mão funda dentro
do sangue
e o astro-lábio habilitado
à síncope melódica

não há outra forma

senão (com) a mão

lavrando campânulas sobre
o vidro eléctrico


IV
os (pro)nomes agora
como (?)

espelhos olhando espelhos
olhados olhos olhados a partir
do omisso centro das imagens

(porque) é uma confiança cega, o ritmo, o coração

é assim que se perde finalmente um rosto


e diz-se "a mão na pena vale a mão na charrua"

e senta-se (-se) assim, levíssimo, feito tão-só de ar,
num verão de amoreiras em torno do pensamento

(os pronomes, também o gesto
de te dar os meus lábios à distância
de um eco)

o gesto de te dar um nome sem nome

(o gesto de te dar o nome com te olho)

V

são gestos as palavras
(e como eu amo esses rostos de estanho)

os nomes, por eles

convoca-se incêndios em celeiros de amor
porque tudo é sempre devido àquele
que conheceu o mundo
e entrou solícito no leito do perfume

os nomes
escreve-se o leito do odor o peso da mão
o eco do rosto contíguo a muros
escreve-se e não se lamenta nenhum espelho

os nomes
atravessa-se sempre a água só de a respirar

e pensa-se em campânulas com o sangue do avesso


"do mundo", pensa-se em árvores semeadas
sobre a lavra do pó

pensa-se em poemas, em anjos cor de cedro
estremecendo, e acredita-se (sabe-se)
que tudo está sempre por fazer

acredita-se no puro movimento das palavras,
como se

incêndios de aves rodeassem

in-ter-mi-ten-te-mente
o tímpano


e, mente o tímpano que ouve a/à distância

"todo o anjo é terrível"

a mão no perímetro órfico

os nomes: todo o amor por fazer

e descobre-se subitamente que é preciso tão-só
plantar as coisas no vento: campânulas

para que o pássaro de boca do poema
possa sempre acompanhar a mão, os lábios
rumo à cega floração do sal

é no centro da mão que vejo nos nomes

a cegueira começando a florescer,
(mas não hermeneuicamente)


VI
campânulas os poemas assim escritos
no contágio de
lume ave âmbar ar
o movimento da boca nos nomes
o sucinto peso lúbrico

e depois o seráfico olhar dos nomes,
como se não fossem já

a boca já antes do gesto dentro
do leito da pedra

e, de vento os poemas: som, som, som
som, habilitado à travessia do odor


sim, corpos, gestos: o odor deslocado no sopro

mãos depois, mãos: o odor colhido nos leitos

sim, o poema começa sempre pela
abdicação dos olhos

vidro escrito sobre vidro,escrito
apesar de tudo e de nada

"no mundo"


VII
começa-se sempre por querer
sem saber

eco e narciso ( é a única verdadeira
história de amor)

(peito repetindo as ondas do mar)

o impossível

as mãos aflitas
sobre a roupa
(des)atentas ao perfume

a semente desatada no gesto de te tocar os olhos
por detrás do vidro
(os teus, que são tão belos)

e no poema, a louca lunação dos nomes
a boca sempre debruçada sobre o aroma

nunca houve outra forma
de escalar a infância
senão pelo som

(a forma como o ar oferece o seu corpo
hoc est enim corpus meum)

nunca houve outra palavra.

Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

orfeu é o rosto

orfeu é o rosto do poema, que
lentamente se aproxima do negrume

(porque) há uma treva que fulgura
entre as palavras

ícaro alça o braço, e toca as estrelas,
esse metal fundente do olhar
disposto sobre o domínio erótico da mão

o poema é,

para que se opere a combustão do olhar
na carne,

o poema é,

para que se abra um rosto
no fulcro da visão,

porém, na verdade, um rosto é impensável,
e o poema não pode olhar para trás,
incêndios ladeiam cada braço

não há quem possa existir num poema,
ele é sempre o corpo imponderável,
a distância entre a queda de orfeu
e o voo de ícaro sobre o cume das sombras
em combustão,

ele é o rosto unânime do flagelo,
e é eurídice envolta pela seda ardente
do coração, e é o verbo sempre oculto pelo que revela

e, é este texto que é luciferino, que é o rosto velado
da esfinge, o rosto que incessantemente
se aproxima do negrume sem nunca se afastar
do dia

Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

ouço apenas a voz que a tudo se refere
sem nada dizer
sem título I

da cólera nunca se fez canção. coda:
as mulheres robustecem-se no talento
que as faz arborizarem-se - o sangue aprende a cantar, fortalece-se
no júbilo da canção -, e tornam-se
de mármore, aprendem a fabricar metais, entusiasmam-se
na destilação dos mistérios, enlouquecem
a partir da cintura, se pisam as pedras quentes com os pés nus, -
o sangue é conduzido para as arcas dos sótãos,
e o corpo, deixasse-o, como se abandona uma casa vazia -,

e o homem, cansado de polir a madrepérola,
pára, e dedica-se ao fabrico de pequenos cestos de vime,
para que o sangue cicatrize (até) nos espaços mais recônditos da memória, -
essa arte de coar água turva e cair a prumo -,
que é sempre em maio que, às mulheres, lhes desagua
a violeta no pulso, enquanto salgam o sangue, e se sagram
ao talento de emudecer lentamente:
sabe, aprendiz sombrio, que
a doença florirá sempre no negrume da mão fechada

Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

poema

colho a flor (d)o enigma (d)a brancura
depuro a palavra o rosto

entregue à vertigem do chão

cinjo o som em torno da veia
cingida pelo movimento

sei que os olhos, que o sangue
sei que respiram
a prumo toda a vertigem do gosto

semeio depois a cegueira nas eiras solares
onde as mãos se entregam ao martírio
das sombras, e espero
com o céu sob o pé e as raízes do sangue
no ventre em flor

espero com a cal como irmã

(espero o mundo
sempre no centro do movimento),

o céu é sempre raso
em redor da córnea


da carne
aplainada


nos silos do verão

provo o lume, sinto o aroma
é meu o centro aceso da semente

semear depois: uma arte de perder
o rumo no centro das chamas

as mãos na vidência do espaço
desenham a penumbra

em torno da imortalidade da pele

o olhar como um lugar imóvel
poema de amor
1
se, agora, as ninfas se calam,
e amam, inclinadas no meu sono,
as naus que partem, vertiginosamente,
a tua queda é a minha queda;

se o som é labirinto,
a mão atravessará os espelhos
para colher a flor da cinza
no centro do tímpano

se o anjo é labirinto (hermenêutico),
se trás sempre à tangente da fronte
a ferida aberta do nome, há-de
haver alguém que profira
o verbo certo, e eco de uma sombra
nos silos ao centro do verão

2
sei, ícaro caiu também
com eurídice funda no coração;

então, digo-te:
não caias, que, se cais, eu terei de ficar cego
de excesso de sombra junto ao peito –
terei de percorrer os labirintos cingido pelo lume
em torno do olho e pela risca do sal
em redor do lábio

3
mas, porquê, pergunto-te a ti,
que não ouves o levíssimo
silêncio do anjo, porquê
calar as ninfas, e amar o mar?
porquê, ao escrever o poema entrar
no labirinto das cearas submersas
da lava em plena floração?

porquê o coração avaro, a casa vazia,
as manhãs gastas?

porquê a brancura e o cavalo alado,
e os olhos revirados, e a boca cheia
de sal ou algas?

porquê os ornamentos, o estilo, a figura,
se as casas se abrem
gratuitamente à desmesura dos vendavais
polindo os lábios das ninfas sentadas nos quintais em flor?
porquê a queda num sono raso em torno dos ombros,
e porquê sempre a melodia do silêncio estremecendo
nos recessos sombrios?

porquê o magma pelo peito?
porquê o plasma circunscrito por um meridiano de cal?
porquê a queda dos líquidos,
se as córneas apontam as constelações róseas –
o deus aberto perante a visão –
e o pequeníssimo céu que se retém debaixo do pé
ligado às raízes dos minerais?

porquê as rosas e as casas caladas?

porque o labirinto sonoro das raízes
em torno do ventre,
enquanto uma cidade tróia inteira me arde atrás dos olhos
quando me olhas?

4
porque a medusa acordará finalmente do seu sono de vidro
e haverá de devorar o universo inteiro
com o sal das suas córneas
ateadas no fulcro do movimento
de quem escreve e toca
nos lugares que se não podem tocar,
e porque se ninguém cantar a voz sem nome do anjo
restar-nos-á apenas para celebrar,
entre paredes de lume,
uma levíssima flor de cinza

(nunca ouso perguntar ao poema
o que quer e qual o seu nome)

porque a poética funda-se no seu labirinto,
e, porque, sempre,
nas tardes de rimas ancestrais, descobrimos
o incessante horizonte não nomeado
dos meandros da
palavra palavra

Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

A NATUREZA EM ABISMO | Do Abismo Ao Aberto



Quinta-feira 16 JULHO 09 | FBAUL

17H . corredor 1º piso . Instalação
21H45 > 22H45 . cisterna . Performance

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Faculdade de Belas-Artes
da Universidade de Lisboa

Largo da Academia Nacional de Belas-Artes
1249-058 Lisboa | Portugal

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

como nunca recordar o que aconteceu [A OMISSÃO DO CENTRO]




como nunca recordar o que aconteceu

[A OMISSÃO DO CENTRO]

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17 JULHO 09 . 19 H

CCB . Centro Cultural de Belém

Praça do Império . Lisboa


um projecto de Ana Nobre e Luís Felício,

com a participação de Joana Tavares

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Uma imagem não tem um lugar, ela deriva de todos os lugares. Sem centro.

É a diáfora do sentido.

A imagem: a repetição de um lugar com outro lugar.

A substituição de uma ficção com outra ficção.

O que é que acontece quando (o) nada acontece?

Toda a imagem é a recordação do impossível: uma ficção, uma forma

de mostrar o sentido precisamente através da omissão do seu centro.

Toda a imagem significa dar o lugar às coisas, deslocá-las ou atravessá-las,

dar-lhes outros lugares.

Uma imagem: a possibilidade de pensar o impossível, de pensar o impensável:

toda a imagem é ao mesmo tempo tudo o que deve ser pensado e o que não

pode de facto ser pensado.

A imagem – ficção – como aquilo que não pode ser pensado, porque

é aquilo que permite o ter lugar do pensamento.

O ter lugar do lugar. O pensamento, a imagem, são distância do centro,

são a deslocação do sentido – a vida dos corpos.

_

Na ausência do pensamento em acto e da própria acção é certo que algo

acontece. O corpo acontece.

Sabe-se que na ausência do (acto) pensamento como centro das determinações

o real continua a acontecer – exterior ao próprio pensamento o sentido continua

a ter lugar.

O pensamento é também só na condição da omissão do seu centro.

O centro é o que não se pode ver.

O pensamento, o acto, são uma imagem do mundo.

O pensamento só se processa na condição de estar ausente do seu próprio

centro, do seu próprio presente.

_

Onde está o centro do sentido? Qual o centro de onde vem uma imagem?

Pensamento e imagem têm a mesma natureza. Dão-se só na condição

da sua ausência no mesmo momento em que acontecem.

Daí a sua ausência do momento presente, a sua não-presença, que paradoxalmente

é a única forma que ambos têm de conseguir aproximar-se do tempo

presente, desse aqui e agora que sempre nos escapa.

É por isto também uma performance sobre o Tempo, nomeadamente sobre

o que é o presente, o presente acontece?

É possível estar/ser consciente de uma vivência presente?